1) Gostaríamos que nos contasse sobre sua formação acadêmica e trajetória profissional até o momento.
Sou formado em Agronomia e fiz mestrado em enologia (UFSM) e doutorado em química de polifenóis/enologia (U-Bordeaux). Trabalho na Embrapa com pesquisa aplicada à enologia. Coordeno uma grande linha de pesquisa chamada “Qualidade e competitividade de vinhos finos”, composta de projetos nos quais estudamos diversas variáveis ambientais, agronômicas e enológicas que interferem na qualidade dos vinhos, procurando otimizar aquelas que concorrem para o aumento da qualidade e inibir aquelas que concorrem para limitá-la. Também sou consultor de dois projetos vitivinícolas com foco em alta qualidade e ministro a disciplina de enologia no pós de enogastronomia da Univali.
2)Como profissional atuante no “mundo” da enologia, qual a importância deste curso de pós graduação em enogastronomia no mercado atual?
É enorme a importância. As cadeias produtivas são complexas, englobando diversas áreas do conhecimento. Na cadeia produtiva da vitivinicultura, a enogastronomia representa um elo fundamental, pois une os elos da produção aos elos do consumo. Encerra, portanto, conhecimentos das ciências naturais e exatas (química, bioquímica, microbiologia, tecnologia), humanas (filosofia, psicologia) e da saúde (nutrição).
3) Várias regiões do Brasil estão produzindo vinhos, o que poderia ganhar destaque neste momento?
O destaque é o aumento do leque de produtos de boa qualidade disponíveis no mercado, fruto da variabilidade de potenciais das diversas regiões. Isso enriquece sobremaneira o Brasil como país vitivinícola.
4) E pelo mundo a fora, que regiões estão produzindo vinhos que valem à pena ser conferidos?
Todas as regiões têm algo que merece ser conferido. Particularmente, gostaria imensamente de conhecer algumas regiões que ainda não visitei, como Neuquém (sul da Argentina), Ilhas italianas do Mediterrâneo e arquipélago da Madeira.
5) A enogastronomia busca esta combinação perfeita do vinho com o alimento. Qual harmonização você considera como ideal?
Peço desculpas por dar uma resposta diferente a esta pergunta. Como sou alguém que come de tudo e sou eternamente curioso por descobertas e novidades, digo que a harmonização ideal é sempre a seguinte: espírito em estado de graça + ótima companhia + ambiente adequado (temperatura, conforto e beleza) + vinho de alta qualidade (a vida é muito curta para que se perca tempo com vinhos medíocres) + comida que case bem texturas, aromas e sabores com o vinho. Se este conjunto estiver completo, não há como não estar harmonizado.
6) Temos aqui no blog uma enquete sobre a harmonização de vinhos e música. Qual é a trilha sonora da sua degustação?
Peço mais uma vez desculpas, desta vez pela ousadia da comparação mas, por ver a harmonização como algo que toca a todos os sentidos do ser humano, ouso compará-la com o sexo (este, visto como um dos atos mais naturais do ser humano e, portanto, aqui, desprovido de qualquer sentido chulo ou depravado). Assim, vejo-a como um estado de espírito elevado, sublime, que se vai atingindo aos poucos, sem atropelos. Desta forma, a pré-disposição do espírito das pessoas, a cumplicidade dos envolvidos, o ambiente (incluindo a música), a comida e o vinho devem entrar nesta equação de tal forma que os sentidos sejam aguçados aos poucos, sem pressa, até atingir um ápice, um clímax. Neste caso, o clímax dos sentidos e do espírito. Então, numa sessão enogastronômica, penso que a música deve variar de acordo com a etapa do processo, sem mudanças abruptas nem ritmos demasiadamente alucinantes, de modo a contribuir para o afloramento das emoções, culminando com a alegria e terminando em aconchego. Não sou especialista em música, mas gostaria imensamente que músicos com sensibilidade enogastronômica compusessem músicas ou até sinfonias, tendo em conta os elementos acima descritos. Quem sabe?
7)Cite cinco vinhos que você recomendaria para uma degustação.
Vou citar meus ‘fetiches’: um grande Sauvignon blanc do Chatêau Haut Brion (Bordeaux – Graves), um Pinot noir brasileiro das regiões de altitude do RS ou SC, um Tempranillo de pelo menos 10 anos de um pequeno elaborador da Ribera del Duero (mas pode ser também da Catalunha - Priorado), um champagne francês premier cru de pelo menos 10 anos, de uma safra excepcional e um bom Sauternes safra 1990.
8)Agradeço a entrevista e desejo um Natal de paz, prosperidade e que 2010 seja ricos de saúde e sucesso.
Retribuo os votos, sinceramente.
por Mariana de Castro

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